Eu e o Pato

Marcos Falco (contador de Estórias)
 
O quintal de nossa casa era grande. Havia nele muitas árvores frutíferas e espaço onde mantínhamos uma pequena agricultura de subsistência. Plantávamos de acordo com as estações do ano. Na época em que isto se passou, o quintal estava com milho entremeado com mandioca vassourinha e abóboras.
Criávamos galinhas, coelhos e principalmente patos, que minha mãe mantivera até então por causa do sucesso dos ovos das patas, muito procurados pelas senhoras da vizinhança para melhorar a forma física de seus maridos. Juntamente com os ovos, minha mãe mandava uma receita de um fortificante chamado “Levanta Defunto”, à base de ovos de pata com casca e tudo, marinados em conhaque, cujas garrafas tinham de ser enterradas por um mês antes do consumo.
Chegamos a ter mais de quarenta patas botando e chocando. Dos filhotes, ficávamos com as fêmeas que iriam produzir novos ovos, sendo os machos, aos quatro meses, transformados em deliciosos almoços de domingo (confesso que deliciosos e forçados; eu já não agüentava mais comer pato aos domingos).
O único pato que não foi almoçado em um domingo já tinha mais de quatro anos de idade. Enorme, era o “galo” do terreiro, metia medo e respeito até no Boy, nosso cachorro. Um verdadeiro sultão, gordo, cercado de patas por todos os lados, andava lento e arrastando as penas, mal sabia ele da ordem que dona Nair, a minha mãe, iria me dar ao final daquela tarde.
Já era lá para as quatro da tarde quando minha mãe me chamou na cozinha e falou: “Marquinho, já que não vamos mais criar patos (iríamos começar a plantar verduras no quintal), vamos vender as patas na feira no domingo e vamos matar o Patão”.
Eu não morria de amores por ele, e com certeza nem ele por mim, porém tive de perguntar se sua carne não seria muito dura, tendo em vista sua idade. Ela respondeu: “Nada que duas horas na panela de pressão não resolva, vai ficar como um pato de leite”.
A ordem fora dada, e a mim cabia a missão (que imaginava das mais fáceis) de executar o sultão do terreiro. Quatro da tarde, ele estaria debaixo das coelheiras tomando sombra e comendo o farelo que caía por entre as ripas. Fui direto ao seu ponto de descanso preferido, mas ele não estava lá. Naquele momento, tive a impressão de que o danado havia pressentido o que iria acontecer.
Procurei por todo o quintal e fui encontrá-lo literalmente escondido no meio do milharal, debaixo de umas ramas de abobreira. O olhar do bicho era uma mistura de medo e desafio. Ele me encarou como que dizendo, “Não vai ser fácil! Prepare-se para correr muito”.
Muito foi pouco. Corri atrás do filho da pata por quase uma hora, passamos por debaixo do chiqueiro e por todo o milharal, de que restaram poucas espigas após aquela batalha. Finalmente mais cansado que eu, pois era bem mais velho e pesado, enfiou-se debaixo da coelheira onde deveria estar inicialmente e entregou os pontos.
Para matar o pato peguei meu tradicional e infalível facão de cortar capim para os coelhos e um cepo de eucalipto que usava para picar ramas de mandioca. A técnica era simples: corpo do pato de um lado do cepo, preso pela minha perna direita, pescoço do pato esticado pelo cepo, e a cabeça do outro lado do cepo, presa pelo meu pé esquerdo (pare um pouco a leitura e imagine a cena, pois é muito importante para crer neste acontecimento). Já imaginou a cena? Então seria só meter o facão no pescoço do pato, e panela.
Mandei o facão num golpe certeiro e único (era bom nisso) e pronto, cabeça prum lado, corpo pro outro. Aí aconteceu! Levantei-me e o pato também. Ele rodou em círculos por duas ou três voltas e disparou pelo terreiro, lembrando aqueles aviões anfíbios tentando levantar vôo. Pior: não só tentou, ele alçou vôo meio sem direção, passou raspando no tronco do abacateiro e deu uma rasante no milharal. Eu, com a cabeça dele na mão, não queria acreditar no que estava vendo.
Pude ver quando ele ultrapassou os limites de nosso quintal e invadiu a propriedade do seu Fiori, um velho italianão, nosso visinho da frente, indo de encontro a um grande bambuzal que havia no fundo do quintal do velho, quase na chácara do seu João.
Fiquei com cara de bobo. E agora, o que contaria para minha mãe? Comecei a gritar: ”Mãe, mãe, mãe, corre!”. Ela me olhou com a cabeça do pato na mão e logo perguntou: “Cadê o pato?”. Respirei fundo e falei: “Ele fugiu voando lá pra casa do seu Fiori”. Tentei explicar várias vezes até que ela, mesmo não acreditando, aceitou ir comigo até o bambuzal do velho, procurar o pato.
Explicamos para seu Fiori que o pato havia voado para o seu quintal, porém omitimos que a ave estava sem cabeça. Ele ficou incrédulo quanto ao Patão ter voado, e ficaria ainda mais se soubesse que fora sem a cabeça. Fomos autorizados a procurar a coisa e, lá no bambuzal, encontramos manchas de sangue que poderiam ser dele.
O fato ficou mais cômico quando minha mãe, talvez por instinto, começou a chamar pelo pato: “pat pat pat, pi pi pi , pat pat, pat”. No momento, não me contive e falei: “Mãe, não adianta, ele não está escutando, olha a cabeça dele na minha mão”.
Nunca encontramos o Patão. E minha mãe morreu não acreditando na minha explicação para o sumiço do pato. A única testemunha viva sou eu, pois seu Fiori, que para mim comeu o pato naquele domingo, também já morreu. 
 

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