O Cachorro e o Vendeiro

Por: Marcos Falcon

Nunca deixamos de ter em nossa casa um bom cachorro. Em muitas épocas chegamos a ter quatro ou cinco deles.

Eu lembro bem de alguns, em especial o Boy Preto, mestiço de dobermann e veadeiro, cachorro valente, o maior brigador da Campanela e do Morro do Falcão, o Boy Peludo, meu maior companheiro, o melhor caçador de preás de toda a Itaquera. Seria necessário um livro especial para falar de todos os nossos cachorros.

E, houve Thor. Este era mesmo especial. Um pastor belga todo preto, valente, não sabia caçar, mas foi o mais inteligente de todos.

Thor já era famoso por seu porte e beleza, mais todos os vizinhos destacavam sua maior qualidade, ele ia as compras para minha mãe. Bastava dona Nair, minha mãe, escrever o pedido, colocar na sacola e mandar: Thor vá ao açougue, e lá ia ele. Thor vá à quitanda, e lá ia ele. Thor vá à venda, e lá ia ele. Thor sempre ia direto ao destino e do mesmo modo retornava para casa, com a sacola firmemente prendida pelas alças de couro na grande boca.

Thor nunca errava o destino, e não importava o pedido, ele sempre trazia direto para casa, poderia ser um filé, um frango ou uma verdura. Diariamente ele ia a venda do Sr Luiz, um típico secos e molhados, onde se encontrava um pouco de tudo.

Na venda daquele português todos lá no Morro do Falcão compravam na caderneta, um sistema da época onde não existia inflação e as pessoas pagavam suas contas. Toda compra era anotada na caderneta e no final do mês a mesma era somada pelo vendeiro e o total era pago. No dia do pagamento normalmente o vendeiro mandava um brinde para o cliente. Bons tempos aqueles.

Seu Luiz, um português parrudo, de mais ou menos um cento e dez quilos, dentro de seu corpanzil de um metro e noventa, vivia rindo à toa e quando ria suas enormes bochechas ficavam ainda mais vermelhas que o normal. Ele agradava todas as crianças da vila, distribuindo balas quando lá nós nos reuníamos todas as noites para assistir na única tv do bairro (branco e preta) as aventuras de Rim-Tim-Tim, outro famoso cachorro. Minha mãe sempre falava que ele também gostava muito de agradar as empregadas que iam fazer compras para as patroas.

Eu lembro bem daquele dia em que minha mãe escreveu o pedido e mandou o Thor ir a venda do Sr Luiz comprar dois ovos, um quilo de macarrão padre nosso, um quilo de feijão javo e um pedaço pequeno de toucinho defumado.

Estávamos brincando debaixo da jabuticabeira quando minha mãe perguntou pelo Thor, pois já se passava mais de uma hora e ele não havia retornado com as compras que ela queria para preparar o almoço.

Por ordem de minha mãe e muito contra gosto fui até a venda que ficava a uns trezentos metros de casa verificar o que havia acontecido.

Quando cheguei na venda deparei com uma cena que jamais irei esquecer, seu Luiz estava acuado num canto do balcão, perto da caixa de bacalhau, e o Thor com olhar fixo no portuga rosnava como um leão bravo. Seu Luiz gaguejando balbuciou algumas palavras que eu entendi que eram para que eu fosse buscar minha mãe.

Corri para casa e informei minha mãe que o Thor estava querendo morder o dono da venda. De imediato ela pegou a corrente e fomos correndo para lá.

Aos gritos minha mãe mandou o cachorro afastar-se do vendeiro e o atou na corrente. Tivemos que arrastar o Thor para casa.

Estranhando o comportamento do cachorro minha mãe não mais o mandou para as compras, e além disto manteve-o preso na corrente.

Somente mais tarde no final do mês é que acabamos descobrindo o que realmente havia ocorrido. Quando chegou a conta da venda, pela primeira vez o total do Seu Luiz não batia com o total da conta da minha mãe. De imediato dona Nair que era habilidosa com os números efetuou a reconciliação da conta da venda e aí descobriu que naquele dia seu Luiz, provavelmente por distração, havia marcado duas dúzias de ovos e não os dois ovos pedidos na compra.

Thor foi solto de imediato e retomou suas atividades de compras até quando já estava velho e não podia mais carregar a sacola. Morreu com quase onze anos, e foi enterrado juntamente com sua sacola, na divisa do quintal da tia Terezinha, bem em baixo do pé de manga.

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