Caçadores de Rã

Por: Marcos Falcon

Novembro, o verão já se fazia sentir pelo calor excessivo e pelas pancadas de chuvas rápidas e fortes.
Eu debruçado sob a lição de matemática fui interrompido pelos gritos do Cutruco, meu amigo João Turco “Marcola, Marcola, uma pimenta”. Depois de acalmar o João ele enfim pode me traduzir a mensagem cifrada de sua gritaria. Ele havia encontrado uma grande espuma de Rã Pimenta.
As rãs no ato do coito, desovam milhares de pequenos ovos envolvidos por uma especa espuma que mais parecem com sagu na clara ao ponto de neve. Normalmente a espuma e os ovos são de um branco brilhante sendo que na desova da rã pimenta esta coloração tende para um amarelo claro.

O João queria de todo jeito que fossemos imediatamente pegar a rã, pois afirmava que ao passar perto da espuma pode perceber o movimento do casal que lá ainda permanecia. Informou-me que a espuma estava em uma pequena poça de água criada pelo transbordo do Areião o rio que passava exatamente onde hoje está a estação Corinthians de Itaquera. Na época ali existia uma grande plantação de eucaliptos que ia de Itaquera até Arthur Alvim.
Vesti um velho calção de brim com elástico na cintura e lá fomos nós.

Seguimos pela rua Tomazzo Ferrara até a chácara do seu Estilino e dali para frente fomos caminhando pelo leito do rio que era raso com não mais que um palmo de água transparente. O areião foi um córrego espetacular e muito diferente dos demais, raso e bastante largo com uns 5 metros entre as margens e seu leito de uma areia amarela e macia que dava um enorme prazer aos pés quando do caminhar.
Chegamos na poça e realmente lá estava a imensa espuma amarelada e não restava mais duvidas que era de pimenta. Ao aproximar pude perceber um leve movimento naquela maça gosmenta e maravilhosa.
Não poderia dar errado, principalmente com a habilidade do João em pegar rã na espuma, mas aquela era uma pimenta, uma grande e requeria o esforço e a colaboração de dois especialistas no assunto, sendo que o segundo seria eu.
Cercamos a espuma a quatro mãos e investimos com firmeza esperando o forte aperto dos potentes braços da pimenta macho, que se pegar de jeito pode até quebrar os dedos.
Peguei, peguei gritei eu, peguei pela perna e de imediato João também confirmou ter segurado outra das pernas.  Os nossos corações dispararam em um frenesi de taquicardia, estava pega, agora era somente segurar firme e arrancar a bruta da espuma.

Ela foi deslizando na gosma e mostrando seu corpo. Um grande susto, arrancamos da espuma uma Jaracuçu do Brejo de mais de um metro e meio de comprimento. A paralisia de nossos corpos durou uma fração de segundos e atiramos a serpente para longe.  A pobre da cobra mal podia se movimentar pois a rã ainda estava inteira na sua barriga com as patas traseiras para fora da boca do belo animal e isto foi nossa grande sorte em não termos sido picados pela víbora.
João nunca me perdoou, pois não deixei ele matar a cobra e retirar a rã de dentro de sua boca. É certo que ele não pretendia comer a rã que a esta altura do campeonato estava envenenada.  Ele apenas queria mostrar o troféu para nossos amigos para aumentar e conferir sua reputação de grande catador de rã.
João estava certo pois ninguém acreditou em nossa estória, não tínhamos a rã, nem a cobra e na época não havia a facilidade das fotos digitais até mesmo em celulares.

Hoje presto mais uma homenagem ao amigo Cutruco, que Deus o tenha aprontando no paraíso, e divulgo este fato afirmando a todos que tiverem a oportunidade de ler que o mesmo é verídico e que o João foi o maior caçador de rã quem eu conheci.

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